Tensão
(Do gr. tonos, de teíno, segurar, tomar, no radical sânscrito tan)
a) Era usado pela escola estóica grega para indicar o esfôrço interno (a coesão interna) que dá a tôda coisa a coerência de sua natureza, quer resída esse esforço na própria coisa, ou dado por uma outra mais perfeita. É algo em ato que coacta (co-a ta) os elementos componentes de uma coisa, dando-lhe a coerência geral de sua estrutura.
b) Chama-se, ainda, de tensão, o esforço da vida mental, que oscila entre extremos na captação do conhecimento e no contato com as coisas do mundo.
c) Emprega-se , ainda, o termo para indicar o grau de deformação de um corpo produzido por um esfôrço determinado.
d) Diz-se do estíramento muscular extremado produzido por um esfôrço voluntário.
e) Estado de desequilíbrio em um organismo, e que conduz a uma mudança de conduta, com o fim de restaurar o equlíbrio.
f) Sôbre o conceito, no sentido, de a, vide Existência e Essência.
Crítica: - Uma tensão consiste em uma unidade, que é especificamente diferente dos elementos componentes.
A água não é uma espécie do oxigênio, nem do hidrogênio, nem corresponde a uma fase do desenvolvimento dêstes, porque ela surge de um correlacionamento aríthmico, numérico no sentido pitagórico, sem o qual a água não seria água.: esse arithmós, êsse número, é o pelo qual a água é o que ela é. É o esquema da tensão da água. É o que Arístóteles entendia por causa formal. e também por forma das coisas físicas. Os correlacíonamentos (cujo conceito está expresso na tríada pitagórica menor, a tríada da série) mostram-nos que, em suas atualizações correlacíonais, os entes sofrem uma ínteratuação que modifica total ou parcialmente o arithmós de cada ser componente, permitindo o surgimento de um novo arithmós, especificamente outro, dando-se, assim, ou a geração relativa ou simples (absoluta). A primeira dá-se quando há modificação apenas entre minimum e o maximum do varíavel no arithmós (como arithmós invariável é triângulo, cujo arithmós invariavel é a triangularidade, mas o ser ele isósceles ou escaleno são "variantes", que não se afastam da invariância arithmica, pois a proproporcionalidade intrínseca é a mesma). (O triângulo isósceles tem, por sua vez, uma proporcionalidade intrínseca específica, que é inclusa na da tríangularídade; é uma espécie desta. A proporcionalidade extrínseca é a da figura dêste ou daquele triângulo, e esta é variável. A variância dá-se "compreendida" na forma que é ínvaríante) .
A água não é uma espécie do oxigênio, nem do hidrogênio, nem corresponde a uma fase do desenvolvimento dêstes, porque ela surge de um correlacionamento aríthmico, numérico no sentido pitagórico, sem o qual a água não seria água: esse arithmós, êsse número, é o pelo qual a água é o que ela é. É o esquema da tensão da água. É o que Arístóteles entendia por causa formal, e também por forma das coisas físicas. Os correlacíonamentos (cujo conceito está expresso na tríada pitagórica menor, a tríada da série) mostram-nos que, em suas atualizações correlacíonais, os entes sofrem uma ínteratuação que modifica total ou parcialmente o arithmós de cada ser componente, permitindo o surgimento de um novo arithmós, especificamente outro, dando-se, assim, ou a geração relativa ou simples (a absoluta). A primeira dá-se quando há modificação apenas entre minimum e o maximum do varíavel do arithmós (como, por analogia, no triângulo, cujo arithmós invariável é triângulo, cujo arithmós invariavel é a triangularidade, mas o ser ele isósceles ou escaleno são "variantes", que não se afastam da invariância arithmica, pois a proproporcionalidade intrínseca é a mesma). (O triângulo isósceles tem, por sua vez, uma proporcionalidade intrínseca específica, que é inclusa na da tríangularídade; é uma espécie desta. A proporcionalidade extrínseca é a da figura dêste ou daquele triângulo, e esta é variável. A variância dá-se "compreendida" na forma que é invariante) .
Fisicamente, por exemplo, o homem tem um limite no seu conjunto: matéria e forma. Poderá atingir ao gigantismo, mas sempre haverá um limite até para a monstruosidade, que é um desmesuramento da natureza.
Conseqüentemente, a variância figurativa tem limites. A geração será simples ou absoluta, quando os elementos componentes (a causa material) sofrem uma mutação na própria natureza. Na água, há uma geração relativa, segundo a físico-quimica, porque o hidrogênio e o oxigênio sofrem transformações permissíveis dentro de seus arithmói; de modo que, nela, permanecem virtualizados, podendo retornar ao estado atual anterior. Quando, porém, há mutação formal da natureza, como na assimilação, deixa totalmente de ser o que era, como o vegetal que se torna carne, como nos mostrou Aristóteles, os elementos transformam-se também.
Vê-se ademais que, na natureza, a geração absoluta o é segundo uma certa esfera da realidade, não segundo tôdas, pois noutras relativa, como se depreende 10 exemplo acima examinado.
Há numa unidade de mera agregação, como num monte de lenha, um esquema concreto de singularidade, e ele corresponde ao que esquematizamos por monte de lenha, mas a sua lei de propocionalidade é extrínseca.
Num ser vivo, o esquema concreto é uma lei de proporcionalidade intrínseca singular, adequada ao arithmós daquele ser. Este ser, desta espécie, e aquêle, da mesma espécie, o são porque a lei de proporcionalidade intrínseca invariante de ambos é a mesma, concretamente neles. O correlacionamento intrínseco do ser (pois ambos o reproduzem) é idêntico à mesma lei de correlacionamento. Contudo, ambos apresentam, concretamente, diferenças arithmológicas, de outros relacionamentos até de desmesuramentos, que, no entanto, cabem no arithmós eidético do ser, que é revelado concretamente pelo que é, em ato, neste ou naquele individuo, desta ou daquela espécie.
É o variante do arithmós do esquema concreto singular, que não contradiz o esquema eidético, que é a lei de proporcionalidade intrínseca
O esquema concreto do ente é a sua haecceitas, heceidade (haec, isto, istidade), o aríthmós da individualidade, da sua singularidade. Mas, esse esquema concreto singular é composto do esquema eidético, que é imitado pelo ser, cuja lei de proporcionalidade intrínseca imita, assim como este triângulo, aqui, feito entre este canto da mesa e este livro, a triangularidade que é um ser eidético, meramente formal, que jamais está singularmente na coisa, pois, do contrário, nela se individualizaria.
O esquema eidético é um modo de ser, que não é nem singular nem individual, é apenas formal (eidos) na ordem do ser. É um logos possível de ser imitado, mas que, no ser, não é apenas uma possibilidade, mas é da atualidade do Ser infinito, absoluto. Por isso surgem entidades que o copiam, como este triângulo, cujo relacionamento intrínseco das suas partes repete a proporcionalidade intrínseca da triangularidade infinita, que é um logos no Ser infinito e absoluto.
Mas êste triângulo, que está aqui, é ademais proporcionado aos sêres que o imitam. Não tem a perfeição do esquema eidético, porque é um esquema aqui, concreto, realizado por sêres materiais, que não podem atingir aquela perfeição. Portanto, é um triângulo imperfeito.
E note-se aqui a positividade da “teoria da relatividade”, que estabelece que as figuras geométricas reais, in concreto, não atingem a perfeição que pode ser expressa matemáticamente. Não há na natureza, in concreto, nenhum triângulo perfeito nem pode haver. E a razão está em que êste (haec) triângulo imita apenas a triangularidade invariante e o seu variante eidético, pois é qualitativamente isósceles ou escaleno, etc., mas é um triângulo de pedra, de madeira, cujas partes correlacionadas imitam a triangularidade, pois são esta pedra e esta madeira, e não a triangular idade, da qual apenas participam formal e figurativamente.
Portanto, êste triângulo de pedra ou de madeira tem o seu arithmós concreto, o seu esquema concreto, que é uma síntese imitativa do esquema eidético, incluindo invariante e variante, e a proporcionalidade imitativa intrínseca dêste ser. O esquema concreto é a haecceitas, é êste ser singular, que não nega, mas afirma o esquema eidético, que é da ordem do ser, imitado por aquêle. Nós, porém, captamos, proporcionadamente à nossa intencionalidade psicológica, o esquema concreto pela intuição concreta da coisa, e pela nossa mente realizamos a operação de destacar, de modo intencional, o esquema eidético, e construímos o esquema formal abstrato, que é eidético-noético, porque já traz a marca do nosso espírito (nous).
Desta forma, há o esquema eidético na ordem do ser (positividade dos realistas na disputa dos universais); o esquema eidético imitado pelo ente singular, o esquema concreto (in re) - positividade dos realistas moderados e dos que aceitam a teoria da projeção, etc. - no ente individual; e o esquema posterior, post rem (positividade dos nominalistas) em nossa mente, que reproduz, com adequação, proporcionada ao nosso espírito, o esquema eidético e o concreto.
Pela teoria dos esquemas se conciliam todas essas positividades citadas, e ainda mais a teoria da abstração dos tomistas, pois a mente tem o papel ativo de realizar a separação dos esquemas, e também a teoria da projeção dos escotistas, porque há, realmente, uma adequação da mente ao esquema concreto e ao esquema eidético, que ela pode captar verdadeiramente, no sentido clássico da verdade lógica, que é uma adequação da mente ao objeto (adaequatio intellectus et rei).
A teoria dos esquemas concreciona assim o que há de unilateral nas diversas posições filosóficas, e permite uma visão mais clara da realidade do nosso conhecimento.
O importante é agora salientar o advento da tensão. Quando os elementos componentes se correlacionam, de certo modo, há o surgimento de um novo esquema, que é especificamente diferente das partes componentes.
Há aí um salto, o surgimento de um novo ser. Êste não é apenas a soma arithmética das partes, porque as partes sofrem mutações diversas, virtualizando-se para dar surgimento à atualização do novo ser. Há tamanhas mutações qualitativas e correlacionais que seria um erro reduzi-las apenas ao quantitativo, como o faz uma filosofia primária, como o materialismo vulgar.
Há o surgimento de algo novo, de um novo ser. A água é algo novo que surge do hidrogênio e do oxigênio, que sofreram mutações, e são outros no novo composto, que é unitariamente um. Os elementos componentes tinham aptidão para correlacionarem-se desse modo, e ao surgir a nova lei de proporcionalidade intrínseca, surge um novo ser, uma nova tensão, com a sua esquemática completa. Há, aqui, um salto, algo que tem desafiado a argúcia do pensamento humano, e que tem sido solucionado de diversas maneiras, sem que qualquer delas nos satisfaça senão ocasional e provisoriamente.
Mas as bases elementares da teoria dos esquemas, nos permite compreender com nitidez o tema. Os elementos componentes da nova unidade podem e têm aptidão para diversos correlacionamentos, inclusive o que se deu, mostrado pela própria experiência, justificado pelo próprio advento. Em suma, os elementos componentes tinham aptidão para ser assumidos por uma nova proporcionalidade, uma proporcionalidade que é atualizada, que é concrecionada, no novo ente.
Essa aptidão dos elementos de se correlacionarem era um esquema que estava na ordem do ser, pois do contrário teria vindo do nada, o que é absurdo. Portanto, o que se deu era possível na ordem do ser, e tanto o era que se deu. Mas há aí algo que transcende aos elementos, porque nenhum dêles, tomado isoladamente, tinha o esquema, mas apenas a aptidão para correlacionar-se dêsse modo com o segundo que, por sua vez, só tinha a aptidão de correlacionar-se com o primeiro. O que surge é algo que se dá fora de suas causas, algo que exsiste. Há aqui um trans-imanente, um transcender à imanência dos elementos componentes, que se virtualizam na nova totalidade, para serem da totalidade, para estarem em função da totalidade.
Ademais, êsse todo não pode ser reduzido a uma simples soma das partes, porque é especificamente diferente, apresentando caracteres e propriedades que emergem da totalidade, e não das partes, pois nenhuma delas tinha, na sua emergência, tais propriedades ou caracteres, mas apenas a aptidão de unir-se com outra para surgir uma nova emergência.
Essa nova emergência é diferente e independente das partes componentes; é outra. O novo ser é emergentemente novo. Temos, aqui, um salto importante, que uma visão puramente mecanicista não pode explicar. Esse fato admirável que surge, é uma assunção, pois o ente novo é assumido por uma forma que não é a dos componentes, uma possibilidade do correlacionamento, e não dos correlacionados, algo novo que vai repetir, por imitação, um possível da ordem do ser, que está contido no ato de seu poder, senão viria do nada, o que é absurdo.
Nas tensões há, portanto, o surgir de algo novo sem necessidade de emprestar a sua origem ao nada, mas sim ao ser.
Referência: Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais,
Prof. Mário Ferreira dos Santos
