Ciência

Ciência - Etimologicamente, vem de scire (em latim), que significa saber.

a) Em sentido etimológico, ciência seria, portanto, O saber, e neste caso, toda espécie de saber, Com  os gregos, o termo ciência, que é epistéme, opôs-se a doxa, ao saber vulgar, e significava todo saber culto, especulado, teórico, que se contrapunha aos conhecimentos prováveis da doxa (opinião), e da fé, esta inevidente, racionalmente, para oferecer clareza e distinção nas idéias, e a aceitação de princípios observados objetivamente, provados pelos meios racionais mais capazes. Neste sentido, incluía-se a Filosofia, que também era uma sophia. Na Idade Média, prosseguiu o termo com o mesmo conteúdo dos gregos, e significava o conhecimento das coisas, do que infunde ser e razão ao objeto conhecido.

b) Só na Idade chamada Moderna tomou um sentido mais limitado, afastando-se do de Filosofia. Passou a ciência, assim, a ter como objeto os fatos reais, aparentes, os fenômenos, tendendo a estudar e descrever o como da sua manifestação e a explicação dos mesmos, isto é, o porquê conexionado às causas reais, aplicando, a pouco e pouco, neste exame, os métodos da matemática, a fim de alcançar as leis, que regem os mesmos fenômenos.

Empregando a matemática, no exame dos fatos físicos, busca a ciência, através da descoberta das leis, das constantes, dos invariantes, construir uma sistematização dos fatos, conexionando-os uns aos outros e a princípios cada vez mais gerais, coordenando os específicos, e subordinando-os aos genéricos, a fim de construir uma classificação das ciências, o que permitiu a especialização verificada em nossos dias. Tem preocupado modernamente as diferenças que se podem estabelecer entre a Ciência e a Filosofia. De um lado, vemos cientistas tentarem reduzir a Filosofia à Ciência, subordinando-a totalmente a esta, como se vê no cientismo. Por outro lado, outros estabelecem uma separação à semelhança da estabelecida por Ockam em sua famosa metáfora da navalha, criando até um abismo entre ambas. Outros, ainda, conservando a distinção, sem estabelecer uma separação, buscam harmonizar a Ciência, com a Filosofia, e, finalmente, n quarta posição, que é a daqueles que compreendem que o saber filosófico, como o cientifico, por sua vez, são aspectos de um saber supremo, que é, por ex., a mathesis dos pitagóricos.

Impõe-se pois, que se estabeleçam as distinções mais importantes entre Filosofia e Ciência. Enquanto a Filosofia é um saber puro universal, a Ciência é um saber culto particular, pois a Ciência dedica-se ao estudo dos fenômenos, enquanto a Filosofia os ultrapassa para penetrar nas primeiras e últimas causas, quando aquela se atém apenas às causas próximas.

A Ciência descreve o como das coisas e as causas próximas, imediatas das mesmas, enquanto a Filosofia busca o porquê dos porquês, interroga o mais longínquo. A Filosofia trabalha com o contingente e o necessário, o relativo e o absoluto, enquanto a Ciência circunscreve-se apenas ao contingente do acidental e ao relativo. A Ciência pode usar o método experimental, dispor de instrumentos, medir, pesar, contar; em suma, correlacionar as dimensões físicas. O filósofo, despojado de instrumentos, apenas dispõe do pensamento para com ele investigar o que ultrapassa o campo das intuições meramente sensíveis, e das classificações intelectuais meramente próximas. Enquanto a Ciência se move dentro do campo da imanência das coisas, a Filosofia ultrapassa-o para penetrar na transcendência.

Ademais, a Ciência permanece nas abstrações de primeiro grau, quando muito nas de segundo grau (matemáticas), enquanto a Filosofia invade as abstrações de terceiro grau (as metafísicas). Se a Ciência tende a estabelecer, e estabelece, juízos universalmente válidos, a Filosofia, como é freqüentemente considerada pelos modernos, só pode estabelecer juízos particularmente válidos. Devemos dizer, contudo, que a filosofia, orientada pela direção concreta, também pode alcançar a juízos universalmente válidos. E é ao seguir este rumo que ela alcança a mathesis e, também, estabelece o ápice do triângulo, cujos vértices seriam formados pela Ciência e pela Filosofia, alcançando, assim, a um saber que as inclui e ao mesmo tempo as ultrapassa, mas, e sobretudo. fundamenta-as com maior firmeza.

c) A palavra Ciência ainda é empregada em vários sentidos para indicar habilidade técnica. conhecimento de uma profissão, etc. Tem ela, como objeto material, todas as coisas fenomênicas, e como objeto formal o que caracteriza a cada ciência em particular, pois o material pode ser comum às várias ciências. A especialização está neste aspecto formal da realidade fenomênica. Pode-se, ademais, distinguir Ciência em dois grandes hemisférios: ciência pura, aquela que não se dirige para o aproveitamento técnico ou prático, e ciência aplicada, aquela que se destina ao emprego de fins práticos, como a Medicina.



Referência:
Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais,

                       Prof. Mário Ferreira dos Santos
 
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