Certeza

Certeza - Estado de espírito em face de um juízo verdadeiro, que ele reconhece como tal, em um grau que não deixa nenhuma dúvida. Daí o termo também se aplicar à condição do conteúdo lógico, em face do qual se formou aquele estado de espírito.

A certeza pode ser imediata (ou intuitiva), quando se trata de um juízo evidente, e mediata (ou discursiva), quando se trata de uma demonstração. Essa distinção já foi feita por Aristóteles e, desde então, foram propostas as mais diversas tentativas para esclarecer primeiro a natureza da certeza imediata e para determinar, depois, qual é a relação que vigora entre a certeza imediata e a primeira. O problema da certeza, que reúne elementos lógicos metafísicos e psicológicos, está longe, não só de uma solução, mas de uma maneira unívoca de apenas ser estabelecida como problema. A certeza, primariamente, é uma experiência psicológica. Mas o elemento afetivo, de certo não é de especial interesse filosófico. A pergunta é: quais são as condições que produzem este estado psicológico de certeza? Qual é o critério do caráter verdadeiro de um juízo, que consideramos certo? O racionalismo vê, na clareza e distinção das idéias, o critério que garante a sua verdade, e eleva a inteligência ao estado de certeza. De fato, isto prova só a qualidade lógica daquelas idéias e a sua conformidade com a estrutura atual da evolução do intelecto humano. Mas um intelecto limitado também encontra objetos de conhecimento, dos quais ele só pode formar idéias menos claras, mas que, por isso, não são menos verdadeiras; quer dizer, não são menos adequadas à realidade e, conseqüentemente, não menos “certas”, tomando-se “certo”, aqui, primàriamente, no sentido de assegurado e não de correto. Se consideramos um conhecimento intuitivo, em sentido menos estrito, que se aparta das categorias ordinárias da Lógica, deve-se reconhecer que este é verdadeiro em elevado grau, e até essa qualidade foi alcançada à custa da clareza e distinção da representação. Mais feliz parece a opinião que toma como ponto de partida a relação gnosiológica entre o intelecto e a realidade e opina que o ato cognoscitivo é, para chamá-Io assim, transparente, apresenta, visivelmente, a sua determinação por parte do objeto. Ele permite, assim, uma introspecção, que representa uma segunda relação, colocada por cima da relação gnosiológica original, e que nos subministra a certeza. O ponto decisivo é saber se a evidência, como fundamento imediato da certeza, é, de fato, a visibilidade da determinação objetiva inerente à própria percepção. Em todo caso, aparece aqui o momento de um controle secundário da percepção original, que resulta em uma aprovação ou desaprovação, não já do juízo. mas da execução correta do ato de percepção, e assim, indiretamente também, do juízo. A duplicidade no procedimento, visando assegurar a certeza, encontramos em outra forma também em Nikolai Hartmann, que recentemente dedicou especial atenção a este problema. Ele oferece, como instrumento da evidência, o chamado critério das duas instâncias (ZweiInstanzenKriterium aIs Wahrheitsgewissheít) , que parte da consideração de que duas representações do mesmo objeto, que se formaram independentemente uma da outra, e que concordam no seu conteúdo, se oferecem como um critério da verdade. A questão é só de encontrar duas fontes de conhecimento, que são de fato independentes uma da outra. Segundo N. Hartmann, tais fontes heterogêneas se apresentam no conhecimento a priori e a posteriori. Onde quer que considerações apriorísticas e conhecimentos por experiência convirjam na mesma idéia, teríamos a certeza de que essa idéia é verdadeira. Entretanto, surgiram criticas também a essa teoria, salientan¬do que conhecimento a priori e a posteriori, se bem que sejam heterogêneos, não seriam independentes por completo, visto que a camada superior de conhecimentos apriorísticos é radicada e fundada na camada inferior de conhecimentos isolados adquiridos a posteriori, como se lê na crítica de Gottlieb Sõhngen.

Além da concepção da certeza, como uma convicção racional do espírito de que os objetos são tais, como ele os concebe, o termo também serve para designar uma “crença”, que é igualmente uma adesão forte do espírito, não, porém, por razões de ordem intelectual e, sim, por motivos irracionais, e só individualmente válidos. Como a certeza é suscetível de vários graus, ela se encontra também na opinião, que é uma adesão fraca do espírito, deixando lugar à dúvida, ou à oposição.

Uma forma especial ainda é a assim chamada “certeza moral”, que se apóia em uma certa soma de indícios, que todos reunidos sugerem uma determinada teoria, que dificilmente pode ser errada. (O emprego da palavra “moral” neste sentido (certitudo moralts) é familiar à terminologia escolástica).



Referência:
Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais,

                       Prof. Mário Ferreira dos Santos
 
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