Acidente

Acidente - O que acontece com algo.

a) É o que não pertence à essência. Aristóteles distingue:

1) Acidentes que são próprios a um sujeito, não necessariamente (ex: o fato de um músico ser branco);

2) Acidentes que aderem ao sujeito, com necessidade, ainda que não pertençam à substancia, como por exemplo o fato doa ângulos de um triangulo equivalerem a dois retos. – Porfírio,porem, comentando com Aristóteles, provavelmente sem perceber a diferença. Define o acidente como o que pode ter lugar ou não em um sujeito, sem afetar a existência do próprio sujeito, e divide os acidentes em:

b) Separáveis (como para o etíope o fato de ser preto; um caráter constante que, contudo, podia desaparecer sem destruir o sujeito a que pertence). - Nesta definição porfiriana, porém, não cabem as características que Aristóteles aponta, pois um triângulo euclidiano não pode dispensar o fato de seus ângulos equivalerem a dois retos sem deixar de ser um triângulo, ficando, pois, afetada a existência do próprio sujeito.

A definição de Porfírio, que inclui esta última classe, foi a que dominou universalmente na tradição posterior.

c) POR ACCIDENTE chama-se o caráter (de uma ação ou de um acontecimento), por suceder, não em virtude da essência do respectivo sujeito, mas por qualquer outra razão alheia à essência. Por ex.: um barbeiro que chora, não o faz em virtude de ser barbeiro, mas por razões acidentais, “por acidente”.

d) Diz-se de tudo quanto sucede de maneira contingente ou fortuita; - especialmente, na linguagem corrente, ao que su¬cede de desagradável (Lalande).

e) Definição por acidente diz-se impropriamente da que tem lugar mediante a indicação dos caracteres ou notas acidentais do objeto-sujeito.

f) Chama-se “sofisma de acidente“ quando esta determinação d, pretende ser uma verdadeira definição.

g) Quando se deduz da universal afirmativa uma particular afirmativa é que se dá a “conversão por acidente”: todo S é P; algum P é S.

h) Não se devem confundir os acidentes com os fenômenos, pois estes, geralmente, podem ser constantes, inerentes à própria natureza das coisas, por conseguinte essenciais; os primeiros, sempre excluídos da essência dos seres, foram definidos por Aristóteles: como o que não sucede nem sempre, nem ordinàriamente.

i) Para Aristóteles, acidente não é um absoluto não-ente, nem tampouco é absolutamente (simpliciter) um ente. Não se dá o acidente sem a substância. O acidente é da substância (inest in substantiam). O acidente não pode ser separado fisicamente da substância. Dela se distingue realmente, não real-fisicamente. (Para os escolásticos, a separação é ontológicamente possível). Por sua vez, o acidente é conseqüente à forma da substância e lhe é, por isso, proporcional.

São acidentes tudo quanto sobrevém à substância e que tenha seu ser no ser (ínesse) da substância. O primeiro acidente, que acontece à substância, é a quantidade para Aristóteles. Não se trata aqui de um acontecer cronológico, mas lógico.

Conseqüências: tudo quanto é acidente não é absolutamente (simpliciter), e não pode ser primeiro que a substância. O que é acidente não é necessário, mas contingente. O acidente é contingente. O acidente, em um gênero, não pode ser espécie do mesmo gênero. Portanto, a diferença específica, que caracteriza a espécie, no gênero, não pode ser um acidente, mas algo substancial.


Referência: Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais,

                       Prof. Mário Ferreira dos Santos
 
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