Fenomenologia do Espírito, de Hegel
Kant adotou um esquema mais complexo porquanto cuida de identificar em que se sustentam aqueles planos. Assim, as intuições empíricas iniciais são ordenadas pelas intuições puras do espaço e do tempo. Segue-se o entendimento, que é o plano da ciência (categorias). Entre este e a razão (que elabora idéias) introduz a unidade “a priori” da apercepção (o “eu penso” que acompanha todos os enunciados).
Hegel reelabora esse esquema. Parte da consciência, cuja formação é precedida da certeza sensível, da percepção e do entendimento, para chegar sucessivamente à consciênciade- si, à razão e ao espírito. Além disto, inova sobremaneira ao atribuir, a cada um desses momentos, número limitado de conceitos que seriam formulados pelos filósofos e homens de ciência no curso de suas vidas. Hegel tinha uma grande familiaridade com a história da filosofia mas, ao elaborar a Fenomenologia não se preocupa em identificar os pensadores que tem em vista. Este trabalho deixou aos estudiosos e intérpretes. O esquema completa-se com a suposição de que a elaboração conceitual é dialética, isto é, começa por uma primeira afirmativa, a que chama de tese, e enfrenta uma negação (antítese), resultando a síntese final, que, por sua vez, dá seguimento ao processo.
A elaboração filosófica começa de um nível muito baixo, o momento que denominou de certeza sensível. Corresponde ao saber imediato ou saber do imediato, do ente. Aparece como o conhecimento mais rico e mais verdadeiro. De fato, entretanto, esta certeza se revela expressamente como a mais pobre e abstrata verdade. Segue-se a dialética da certeza sensível, através da qual chega-se à percepção. E assim a consciência-de-si. A ampliação e alteração do esquema gnoseológico a partir do empirismo, e passando por Kant, é mostrado adiante.
A etapa da consciência-em-si começa como consciência prática. Esta atividade será inicialmente focalizada como desejo. Em seu desenvolvimento, passará às formas superiores da consciência prática.
As consciências-de-si afrontam-se no jogo da vida, na luta pelo reconhecimento, no qual aparece a dialética do senhor e do escravo ou dialética do trabalho, que se considera muito haja influído a Marx e aos socialistas em geral.
Enquanto nos momentos precedentes a dialética se dá à revelia da consciência, agora é obra sua. Embora a apresentação de Hegel seja absolutamente abstrata, tem em vista tanto a evolução da filosofia como de outras manifestações da cultura. Para exemplificar tomase por exemplo o tema da consciência infeliz, que seria a questão central da Fenomenologia.
Em seus primeiros trabalhos teológicos, Hegel encarava o povo grego como o povo feliz da história e ao judeu como o povo infeliz. O cristianismo corresponderia uma das grandes formas da consciência infeliz.
Na dialética da consciência infeliz os dois primeiros momentos correspondem ao da consciência mutável em face da consciência imutável, que seria o momento do judaísmo e a figura do imutável para essa primeira forma de consciência universal concreta, representada pelo cristianismo primitivo. A unificação da realidade e da consciência-de-si ocorreria no trânsito da Idade Média ao Renascimento, quando aflora a razão moderna.
A consciência-de-si, ao mesmo tempo singular e universal, que serve de transição aos tempos modernos, é a Igreja Medieval. Forma uma vontade geral que nasce da alienação das vontades particulares. Assim, o eu-singular eleva-se à universalidade. Possui um saber imediato dos dois extremos (imutável e mutável) e os põe em relação.
Como resultado do desenvolvimento dessa forma de consciência-de-si surge uma figura nova, a razão, momento particular do desenvolvimento geral da consciência.
Na parte final da Fenomenologia, constituída pelo espírito, as figuras consideradas não mais podem ser reduzidas a correntes filosóficas. São outras as formas de cultura consideradas. O iluminismo aparece como um combate das luzes contra a superstição e conduz à Revolução Francesa. Esta, por sua vez, leva a uma forma de liberdade absoluta que é o terror. A dialética não se interrompe e tem continuidade.
Aparecem sucessivamente a visão moral do mudo e a religião. A religião tem o mesmo objeto da filosofia, a substância espiritual, apenas em forma de representação. Essa descoberta conduzirá ao espírito absoluto.
A complexidade da Fenomenologia advém do fato de que Hegel não pretende apenas proceder a um reordenamento da filosofia mas quer promover uma espécie de síntese da educação da consciência ocidental. Além disto, a primeira geração de seus discípulos, após a sua morte, entendeu que essa elaboração não se dava apenas no plano conceitual, apesar das advertências do próprio Hegel. Postulou, então, que estando elaborado o sistema, cabia levá-lo à prática. Isto equivaleria a promover o reconhecimento do homem pelo homem, implantando uma espécie de sociedade racional. Trata-se naturalmente de um projeto eminentemente utópico porquanto baseado na suposição de que o homem poderia tornar-se um ser moral. As tentativas de dar curso a tal projeto terminaram por dar nascedouro a ferozes ditaduras.
Apesar de tais desencontros, a Fenomenologia contém um método que permite compreender muitos momentos da evolução do saber filosófico. Hegel, na verdade, foi estimulado a resolver a questão da origem dos a priori, que Kant deixara sem solução, e proporcionou a chave para a sua compreensão. No curso do desenvolvimento histórico da cultura, os pensadores foram construindo síntese ordenadoras do real, em grande medida, por oposição e contradição. Mas Hegel não poderia satisfazer-se com resultado tão modesto, embora de conseqüências inimagináveis para a história da filosofia. E resolveu transformar esse projeto num empreendimento para absorver toda espécie de saber e de expressão cultural. (Ver também HEGEL).


