DICKENS, Charles
Alguns escritores românticos contribuíram para a popularização de uma caricatura da Era Vitoriana como o período histórico em que emergem os horrores do sistema fabril e a exploração da classe operária ou como uma fase de hipocrisia moral e de crueldade com as crianças. Entre os autores que nos legaram tal visão, sobressai Charles Dickens (1812-1870). Folhetinista de sucesso* muito jovem ainda, aos 25 anos, encontra-se entre os que mais divertem. As aventuras do Sr. Pidewick, que aparecem em capítulos no Morning Chronicle, em 1837,** o jornal de maior circulação no país, contam episódios muito engraçados do herói que dá título à história e seu criado Sam Weller, fazendo emergir do texto personagens inesquecíveis. Escreveu-se, na época, que “a Inglaterra ri e chora com as aventuras do personagem de Dickens”.Subseqüentemente, Dickens dá preferência a figuras de pessoas pobres, vítimas de incompreensões e injustiças. Oliver Twist (1838) é o relato da vida de um menino órfão que vive num asilo com outras crianças e se vê envolvido com marginais. O ambiente do reformatório é opressivo. Mas é em David Copperfield (1850) que ataca com veemência as instituições de seu tempo, as escolas onde só vê maus tratos, as condições de trabalho que lhe parecem dantescas. Revolta-o, sobretudo, o encarceramento por dívida de que fora vítima o próprio pai, acarretando uma situação terrível para a sua família quando o autor tinha doze anos e viu-se obrigado a enfrentar a luta pela sobrevivência. As vítimas são figuras angelicais e o leitor é induzido a revoltar-se contra a sociedade.
No que se refere à maldade humana, tomada genericamente, alguns autores consideram que Dickens produziu uma obra perene e imortal. Assim, escreve Angus Calder. “Quando a imaginação de Dickens começou a trabalhar na sociedade vitoriana, que ele dominava e detestava, produziu um painel, certamente caricatural e injusto nos detalhes, mas que no geral parece hoje não apenas o reflexo de seu próprio tempo, e de uma forma acurada, como também uma perturbadora aproximação da nossa época. Suas cômicas e inspiradas criações e seus vilões demoníacos têm sido, geralmente, considerados meros monstros, apreciáveis, porém irreais. Mas, como diz Leonel Trilling, “nós, que vimos Hitler, Goering e Goebbels colocados no palco da História, e Pecksniffery institucionalizado no Kremlim, não estamos em posição de supor que Dickens tenha exagerado o mínimo sobre a extravagância da loucura, do absurdo e da malevolência do mundo – ou, de uma forma inversa, quando consideramos a resistência a essas qualidades, a bondade”. Entretanto, no que diz respeito especificamente à Era Vitoriana, sua visão é francamente unilateral e distorcida.
* As novelas (folhetins) apareciam, em geral, nos jornais especializados nesse tipo de publicação, mas também nos periódicos mais importantes. Entre os especializados, sobressai o London Journal, semanário que, segundo Himmelfarb, vendia normalmente 100 mil exemplares, atingindo 500 mil quando do aparecimento de folhetins de grande sucesso. Estes eram posteriormente vendidos em forma de livro.
** Em 1830, Londres tinha sete matutinos e seis vespertinos de circulação diária, com uma tiragem global da ordem de 40 mil exemplares. A população oscilava em torno de 1,5 milhão de habitantes. Paralelamente publicavam-se muitos semanários e mensários, afora as grandes revistas.

