De Servo Arbitrio, de Lutero
A questão em debate é nuclear para o estabelecimento do papel da Igreja. Nas discussões que se travaram acerca da liberdade humana, esclareceu-se que o tema era de índole moral e dizia respeito à escolha do bem. A solução de Santo Agostinho consistiu em dizer que, para a escolha do bem, o homem precisa da interveniência da graça divina. No tempo de Lutero, o que se discutia era se para o merecimento da graça era necessária a interveniência da Igreja. Lutero queria conduzir os fiéis a relacionar-se diretamente com Deus.
No aprofundamento desse debate, a filosofia de Aristóteles tornou-se essencial para a Igreja Católica. Aristóteles aventara a doutrina das formas substanciais e acidentais. Para Roma, o pecado seria um acidente que não afetava a substância do homem, desde que a Igreja o perdoasse. Em Portugal, no século XVIII, a física de Newton – que revogava a física aristotélica – chegou a ser recusada sob a alegação de que era uma questão de fé (portanto um dogma) a existência daquelas formas postuladas por Aristóteles. O contrário deixaria a instituição romana sem função.
Erasmo não se limita a repetir a doutrina tradicional sobre o livre arbítrio. Afirma que, consoante a doutrina de Lutero, nada justificava a existência de uma igreja reformada. Acusa diretamente Lutero de incidir num paradoxo.
Aceitando o desafio, Lutero partirá do reconhecimento de que somente Erasmo havia suscitado uma questão nuclear na Reforma, enquanto os outros tangenciaram o essencial ao ater-se exclusivamente a questões tais como as indulgências, a subordinação a Roma, até onde deveria ir a obediência dos príncipes, etc. O essencial de sua argumentação pode ser apreendido a partir da transcrição a seguir:
“Quem se empenha em corrigir sua vida? Pergunta você, e eu respondo: ninguém, nenhum homem sozinho poderá fazê-lo; porque desses emendadores sem Espírito, Deus não quer nem saber, pois são hipócritas. Serão corrigidos pelo Espírito Santo os eleitos e os piedosos, os demais perecerão na incorreção. Agostinho não diz que não serão coroadas as obras de ninguém, ou as de todos: diz que serão coroadas as de alguns; quer dizer que alguns conseguirão emendar sua vida. Quem acredita que Deus o ama? Pergunta-me, e eu respondo: ninguém acredita, nem poderá acreditar; somente os eleitos, os demais perecerão sem crer, entre críticas e blasfêmias, como você está fazendo! Então, haverá alguns que acreditarão. Mas será que com estes dogmas não se estará abrindo uma janela para a impiedade? É possível; aqueles que praticam a impiedade pertencerão então, à antes mencionada lepra do mal que deve ser tolerada. Não obstante, com os mesmos dogmas, abre-se também a porta para a justiça e a entrada ao céu e o caminho que leva a Deus para os piedosos e os eleitos. No entanto, se seguíssemos o seu conselho e nos mantivéssemos longe destes dogmas, se escondêssemos dos homens a palavra de Deus, de tal maneira que, enganado por uma idéia errada a respeito da salvação, o homem não aprendesse a temer a Deus e a humilhar-se diante dele para atingir a graça e o amor, através do temor: nesse caso realmente estaríamos fechando muito bem essa sua “janela”, e em seu lugar estaríamos abrindo de par em par as portas, melhor dizendo, os abismos e as mandíbulas para a impiedade e mais ainda, para as profundezas do inferno. Assim sendo, nós não entraríamos no céu e tornaríamos impossível a entrada dos outros”. (Ver também LUTERO).
* Desiderio Erasmo (1467-1536), conhecido como Erasmo de Roterdam, incumbiu-se de popularizar o humanismo renascentista, que exaltava a dignidade da pessoa humana, confrontando-a diretamente à autoridade divina. No clima da época, sua obra alcançou grande repercussão na Europa, verificando-se “erasmismo” nos diversos países católicos. Até hoje o seu livro Elogio da loucura, em que critica o papado, continua sendo reeditado. De todos os modos, não conduziu sua oposição até o ponto de ruptura, como ocorreria com os contemporâneos Lutero e Calvino.


