(As) Aventuras de Hulkeberry Finn, de Mark Twain

Mark Twain (1835/1910), pseudônimo literário de Samuel Langhorne Clemens, conquistou em caráter pioneiro um lugar na cultura ocidental para o romance norte-americano, por haver sabido traduzir num relato vivaz a experiência de uma infância livre e despreocupada, ignorando os valores de uma sociedade puritana e acabando por incorporá-los apesar da resistência aparente. As aventuras de Huckleberry Finn (1884) tornaram os membros da “Quadrilha de Tom Sawyer” figuras marcantes por suas aventuras ingênuas e inconseqüentes.

Mark Twain passou a infância às margens do rio Mississipi, que era uma importante artéria de movimentação de mercadorias e pessoas. Foi aprendiz de impressor e jornalista. Empregou-se como piloto de barco no Mississipi; trabalhou como mineiro e lutou na Guerra de Secessão. Por sua obra literária e na qualidade de conferencista conquistou o merecido reconhecimento. Gertrude Stein (1874/1945) que participou da fase em que a literatura norte-americana finalmente alcança renome, depois da Primeira Guerra Mundial, teria oportunidade de observar que os escritores de sua pátria poderiam ter “a qualquer momento da vida, toda a literatura inglesa dentro ou atrás de si”, no sentido de que corresponderia a uma tentativa de improvável sucesso desprender-se de tal herança. Dedicando-se a reconstituir esse processo, Malcom Bradbury (The modern American novel, 1983), referindo-se à situação em fins do século XIX, observa que “figuras notáveis como Herman Melville morreram esquecidas durante a década de noventa e um romancista como Henry James (1843/1916) preferiu trabalhar na Inglaterra a fim de ter acesso ao clima cosmopolita da arte”. Justamente Mark Twain é considerado como o autor que perseguiu e conquistou a libertação das formas rebuscadas, que então se considerava como o aspecto da literatura inglesa digno de ser imitado, buscando inseri-la em suas raízes locais, expressão de um mundo novo em formação, através do folclore e da cultura popular.


Huckleberry Finn enfrenta três situações distintas. Dispõe de certas posses, administradas por uma autoridade judiciária já que era menor. O pai é um bêbado, toma-lhe os rendimentos que a aplicação de seus recursos proporciona. Espanca-o. Para fugir da companhia do pai prefere uma vida errante, vivendo num tonel, vestindo farrapos. A terceira alternativa com que se defronta é viver sob a tutela de uma viúva que o adota e proporciona-lhe existência material saudável. Mas aspira ao mesmo tempo educá-lo, reconduzi-lo. Trata-se de uma pessoa muito religiosa.

Sentia-se, como diz, “todo apertado”. “A viúva tocava uma campainha para o jantar e lá tinha eu de estar à mesa a tempo. E, uma vez sentado à mesa, não podia começar logo a comer; não, tinha de esperar que a viúva baixasse a cabeça e murmurasse qualquer coisa sobre a comida, embora isto já não tivesse qualquer efeito, visto que já estava tudo cozido. Num tonel todo desarrumado isto é diferente. As coisas ficam em desordem, espalham-se por todo o lado, mas tudo se faz melhor”.

A compensação dessa vida ordenada é a companhia de Tom Sawyer, adolescente imaginoso que consegue conceber aventuras fabulosas. Exerce sua liderança sobre outros jovens, fiéis seguidores, crédulos. E assim Mark Twain produziu obra de significação imorredoura.
 
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