(A) arte de amar. de Ovídio
Ovídio (Públio Ovídio Nasão) nasceu em 43 antes de Nossa Era e faleceu a 17, aos 60 anos, portanto, período que corresponde precisamente à substituição da República pelo Império, de grande esplendor e florescimento. Sob a égide do primeiro imperador, o renomado Augusto (nasceu a 63 a. C. e reinou a partir de 27, tendo falecido a 14 de Nossa Era). Plasmamse as novas instituições, além de que bem sucedida a sua política de proteger as artes desde que registra a presença de grandes poetas como Virgílio e Horácio – e naturalmente o próprio Ovídio --, de historiadores (Tito Lívio) e gramáticos. Ovídio perderia a proteção imperial, sendo exilado, aos cinqüenta anos de idade. Supõe-se que tenha sido vítima do empenho de Augusto em reprimir a licenciosidade que se admite existiria no Império, notadamente em matéria sexual. A poesia de Ovídio, pelo seu sentido erótico, estimularia o estado de coisas que o Imperador se dispunha a combater. Sabe-se que declamava nos meios mais cultos, levando-os a verdadeiro delírio.A Arte de amar acha-se subdividido em três livros. O primeiro corresponde a um verdadeiro manual de como comportar-se para conquistar a mulher cobiçada nas mais diversas circunstâncias. Certamente por lhe parecer tratar-se das mais freqüentes oportunidades, os conselhos ditam o que fazer nos lugares públicos (assistindo a um espetáculo, nos banquetes, etc.). O princípio geral é o de que a mulheres “gostam de serem solicitadas”. “A custo, uma entre tantas, te dirá não”. O assédio pode ser também efetivado de forma epistolar.
O livro segundo contém o roteiro adequado para levar a bom êxito a conquista efetivada. “A cobiçada presa caiu nas minhas malhas”. E agora? “Pela minha Arte foi presa, pela minha Arte deve ser conservada”. Ovídio prevê as mais diversas situações. A amante sempre tem razão. É imperativo elogiar o modo como se veste. “Cede à que resiste; cedendo serás vencedor. Somente faze o que ela te ordenar. Se ela censura, censura, tudo o que aprovar, aprova, o que disser, dize, nega o que ela negar”. E assim por diante. Se é cortejada por outro, reconheça que isto o irrita mas logo proclame tratar-se de um defeito. “Mais hábil é aquele que permite que outros frequentem sua amante, mas o melhor será ignora-lo; deixa escondidas as tuas infelicidades.”Bem sucedido nos saraus em que recitava seus versos, Ovídio encarece que reconheçam a eficácia de seus conselhos e o enalteçam. “Dei-vos as armas; Vulcano as dera a Aquiles. Sede vencedores, assim como ele foi vencedor, com os presentes que vos dei. Mas todo aquele que triunfar, graças às minhas armas, de sua amazona, que grave nos troféus: Nasão era meu mestre”.
O terceiro livro é dedicado ás mulheres. Declara: “Não seria justo que as mulheres desapercebidas se medissem com inimigos armados, e para vós, homem, também seria vergonhoso vencer em tais condições.” A linha geral é a de desarmar todo prurido e resistência: “lembrai-vos da velhice que virá e, assim, não deixareis passar nenhum momento sem aproveitá-lo.”
O estilo de Ovídio consiste em mobilizar, em favor de suas teses, exemplos de autores gregos, em especial Homero. Ainda assim, lê-se prazeirosamente o seu texto, geralmente apresentado em prosa, pela dificuldade, na tradução, de preservar, simultaneamente, o sentido e a rima. Não cabe, certamente, proceder à avaliação de índole moral do que entende por “arte de amar”. Ao invés de considerar frívolo o tipo de comportamento social que recomenda, talvez seja mais realista tomá-lo como o culto da galanteria. Tampouco se pode, a partir simplesmente de Ovídio, imaginar que estaríamos de posse de uma visão da vida da elite na Roma Imperial. O que se pretende ao recomendar sua leitura é combinar o caráter de passatempo, de que se reveste a literatura, com a seleção de textos que enriqueçam o nosso conhecimento de estilos e de personalidades – ou facetas de personalidades – que tipificam o curso histórico de figuras representativas do que se poderia denominar de humanidade ocidental. (Ver também Eneida, de Virgílio)


